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russomanias

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A ditadura dos gravatinhas

Aqui há uns tempos, falando com uma pessoa amiga a quem lhe tinha falecido há dias o marido, a mesma contou-me que pouco depois do funeral recebeu em casa um vale relativo à pensão do mesmo. Achando que não deveria levantar a pensão, embora estivesse a precisar do dinheiro, essa pessoa amiga decidiu entregar o vale ao armador que lhe tratou do funeral, afim de este o devolver à Segurança Social. Perguntei-lhe o porquê de não ter feito ela mesmo pessoalmente essa devolução, ou então porque não pediu a um seu familiar para tratar de um assunto tão sério. Não soube responder, ou melhor, respondeu-me que sabia de uma senhora que precisou de levantar o dinheiro que tinha no Banco mas que o gerente da agência quase que a proibiu de o fazer dizendo que... etc., etc. e tal.

 

É do conhecimento de toda a gente em Portugal que dezenas de pessoas têm sido enganadas por individuos que se apresentam impecavelmente vestidos e em grandes carros, uns dizendo-se funcionários das Finanças, outros da EDP, uns engenheiros, outros doutores e por aí fora. Comum a quase todas essas falcatruas é que as pessoas enganadas não conseguiram resistir à imagem de uma camisa branca bem lavada nem a uma reluzente e acetinada gravatinha, pelo que necessário se torna concluir que o toque de Midas para quem se proponha atingir a confiança e o coração de grande parte dos portugueses passa por ter que investir numa bem assente e electrizante indumentária.

 

Sabendo nós de tudo isto, até que não é assim tão difícil compreender alguns dos fenómenos da sociedade actual, nomeadamente o porquê e o como da facilidade com que algumas mentes atrofiadas e tacanhas atingem o topo da pirâmide governativa. É que, afinal, o investimento requerido não é assim tão complicado: bastam duas de letra bem colocadas, um fatinho aceitável e, claro... uma reluzente e vistosa gravatinha!...