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russomanias

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Burro velho sabe muitas linguas

Por vezes deparamo-nos na rua com pessoas ainda jovens mas já cansadas da vida. Quem me dera ter vinte anos dizem-nos, para eles já não é o que era dantes, já não sobem as escadas lá de casa carregados com duas sacas como antigamente, como me disseram há dias. E tudo isso é um morticínio, uma desilusão de que não encontram facilmente a cura. É claro que eu, com os meus quinze e dezasseis anos, não tinha problema algum em jogar três desafios de futebol ao sábado de manhã, outros três nesse mesmo dia à tarde e mais outros três no domingo de manhã seguinte, coisa que fiz muitas vezes então mas que já não faço agora, nem pensar, tanto mais que jogava com os sapatos novos que os meus pais, com todo o sacrifício, me compravam. E já não o faço agora porque, primeiro, o burro velho em todos estes anos interiorizou que isso poderá ser perigoso para a saúde, morrer até, e que, segundo, não é nada correcto e justo espatifar sapatos novos em simples jogos de futebol.

 

É claro que quando somos novos gostamos muito de certas cantorias, vamos enrolados em certas cenas que nos contam sobre "novos amanhãs", felicidades futuras, de que agora sim é que vai ser, desta vez é para valer, que o nosso futuro é mais que promissor, que a vida dos nossos filhos está mais que assegurada, e que, tendo em conta as últimas sondagens... a vitória é mais que certa!... mas burro velho também sabe que anda para aí muito lobo vestido de pele de cordeiro, que nada na vida pode ser dado por seguro sem efectivamente o ser, que muito aprendiz de ditador anda sorrateiramente escondido, de revolucionário cravo vermelho ao peito, bem disfarçado de garboso e impoluto democrata, e mais ainda, mas não só, que muitos conhecidos e afamados comentadores políticos cá da praça não passam de simples e reles fareleiros ao serviço das elites reaccionárias, anti-patrióticas e corruptas que desgraçaram este país.

 

É que burro velho, como dizia o meu saudoso avô, pode já não dar coices... mas sabe muitas linguas!...