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russomanias

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Democracia "low cost"

Tudo começou com as viagens de avião "low cost". Ir a Paris ou a Londres por 20 ou 30 €, ou até muito menos, é coisa hoje banal. Claro que vai tudo a monte e com fé em Deus, sem bagagens e sem direito a comes e bebes, nem sequer ao cafézinho da ordem. Tudo reduzido ao mínimo, tudo muito apertadinho, enfim, uma seca. Depois vieram as confeitarias e os cafés "low cost", as imobiliárias "low cost", os automóveis "low cost", e até já soube de advogados a trabalhar em sistema de... "low cost". Claro que nestes casos os promotores dos negócios e sistemas "low cost" foram-nos logo avisando dos sucedâneos que iriamos encontrar: pasteis, pães e cafésinhos do tamanho de mosquinhas e ao preço da uva mijona, serviços e consultas prestados pelo telefone ou pela internete, certamente através de gravações, sem direito a pedidos de esclarecimento, pagos impreterivelmente através do NIB e com resultados efectivos mais que duvidosos. Tudo uma grande trapalhada e, seguramente, para sacar ao  mais uns trocos a qualquer preço. Mas o actual sistema de vida "low cost" é muito mais do que isto e abrange já muitos outros aspectos da sociedade.

 

Em muitas empresas não interessa já se o trabalhador tem formação suficiente ou não, desde que seja capaz de se sujeitar a umas quantas e árduas tarefas pré-definidas durante 8, 10 ou 12 horas seguidas, sem dias certos de descanso e com férias marcadas ao sabor da vontade patronal... tudo por um salário "low cost" de 200, 300, 400 ou, em casos extremos, de 505€/mensais. Os doentes neste país são atirados, a granel, para os corredores das urgências dos hospitais públicos e aí deixados ao abandono e a morrer, dadas as condições "low cost" impostas ao Sistema Nacional de Saúde e ditadas pelas imposições da austeridade governamental. Por outro lado, o sistema de ensino "low cost" em Portugal está já a dar os seus frutos, com dezenas de milhares de alunos que abandonam as escolas e universidades. E temos também as reformas "low cost" de centenas de milhares de reformados e pensionistas, agora sujeitas à pressão dos pais que se veem obrigados a ter que apoiar os filhos no desemprego, em conjunto com os próprios netos.

 

A tecnologia "low cost" campeia hoje por todo o lado, até mesmo na atitude da maioria do cidadão comum, que alegremente se dispõe a vender a democracia, a sua dignidade e o futuro das próximas gerações... a troco de uma qualquer mentira-promessa de um potencial e esfarrapado candidato a primeiro ministro.