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russomanias

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Falando do Natal...

O tão ansiado Natal está aí mais uma vez à porta e tudo se encaminha, como nos anos anteriores, para refrearmos as nossas tensões nesta época de benevolentes corações moles e condescendência geral. Dizem-nos as nossas consciências, e demais normas religiosas e sociais, interiorizadas à força de muitas missas e multifacetadas pressões geracionais, que é tempo de olharmos para as necessidades insatisfeitas do nosso vizinho do lado e estendermos a mão à caridade alheia se para isso estivermos necessitados. E tudo isso é bom ou mau? Não sabemos. Será assim tão bom só nos apercebermos uma vez no ano que o outro existe e é tão humano e carente de calor humano como nós o somos? E será assim tão mau pelo menos numa noite, em trezentas e sessenta e cinco ou seis, termos quase a certeza que o reconforto está assegurado em cada lar próximo de nós? Estas dúvidas existem em cada ano que passa e este não será diferente.

 

Mas porque terá que ser sempre assim? Porque teremos que questionar o que aparentemente é um dia bom e nos deixa de consciência um pouco aliviada? Suponho que por ser um dia só, entre tantos outros em que temos quase a certeza que as coisas não estarão assim tão boas e as palavras "suficiente" e "abundância" são exclusivas, se forem, de menos de um terço da população deste país. Veja-se o caso das associações patronais, que entendem que é possível viver em Portugal com um ordenado abaixo de 530 euros mensais, com as rendas de casa na ordem dos 400/500 euros, e ainda pagar a alimentação, o vestuário, o infantário, a saúde, a educação e os transportes. Não seria melhor falarmos em Natal durante todo o ano, em que cada pessoa, cada idoso, cada criança fossem tratados com a dignidade devida a todo o ser humano, em que a mesa, o aconchego, o agasalho, o acesso à saúde, à educação e aos bens culturais fossem uma constante do dia-a-dia de cada português?