Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

russomanias

russomanias

Mercedes, mexilhão, BMW e... sopa dos pobres

Aqui há dias passava eu, já noite, ali para os lados da estação do Metro da Trindade, no Porto, quando reparei numa pequena multidão de pessoas que se dirigia para o parque de estacionamento situado ali mesmo ao lado. Perguntei a alguem o que se passava e vim a saber que eram pessoas que iam tomar uma refeição quente (sopa dos pobres) oferecida por uma dessas organizações que prestam apoio e assistência às vítimas da austeridade, pessoas a quem o nosso Primeiro Ministro Passos Coelho apelidou de "mexilhão". Como se devem lembrar, Passos Coelho referiu então que desta vez a "crise" não foi suportada pelo "mexilhão", pretendendo sugerir que a mesma foi debitada desta vez ao "peixe graúdo".

 

Não sei como, perante esta imagem de pessoas arrastando-se por um prato de sopa quente numa fria noite de inverno, veio-me de repente à memória a notícia tambem há dias passada na TV de que a marca de automóveis alemã Mercedes teve uma explosão de vendas em Portugal durante o ano de 2014, sendo o nosso país aquele em que a marca mais cresceu em toda a Europa. No seguimento da notícia, ficamos também a saber que a marca tambem alemã da BMW teve igualmente um forte crescimento de vendas, assim como outras marcas topo de gama. Num esforço silogistico de primeira vaga, concluí logo, no seguimento da afirmação do Primeiro Ministro Passos Coelho, que o "peixe graúdo", pelo esforço feito em pagar a maldita "crise", não teria nunca condições para adquirir tanta viatura de luxo, pelo que só o "mexilhão", pensei, por ter escapado à dita "crise", se poderia ter aboletado a tantas máquinas oriundas do orgulhoso país da Senhora Merkel. Vai daí...

 

Vai daí, com a firme vontade de colocar à prova a maravilhosa afirmação do nosso Primeiro Ministro, caminhei desenfreadamente por todas aquelas ruas da laboriosa Invicta com o objectivo claro de apanhar algum "mexilhão" distraído com a boca na botija, a sair agachado ou disfarçadamente de algum Mercedes ou BMW e a dirigir-se, escandalosa e desavergonhadamente, para a "sopa dos pobres" do parque de estacionamento da Trindade. Determinado, subi a Rua de Camões, desci a Rua do Bonjardim, calcorreei a Avenida dos Aliados, subi a seguir a Rua Sá da Bandeira, atravessei para a Rua Santa Catarina, desci a Rua 31 de Janeiro, subi a custo a Rua dos Clérigos, desci apressado a Rua da Fábrica e, já cansado e subindo sofregamente a Rua do Almada, virei então à direita na Rua Alferes Malheiro, chegando de novo à Trindade. Resultado... em toda aquela autêntica maratona pedonal não vi sequer um único e triste "mexilhão" a sair de um germânico Mercedes ou BMW e a dirigir-se para a esquentada "sopa dos pobres" da Trindade.

 

Afinal, pergunto eu, tanta correria fiz para provar o quê?...