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russomanias

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O senhor Direito e a dona Caridadesinha

O senhor Direito era uma pessoa cosmopolita e simpática e perfeito respeitador dos seus deveres e obrigações. Quem o conhecia sabia perfeitamente que ele não dava baldas no tocante aos seus principais compromissos, embora também fosse bastante exigente em tudo que se referia ao que lhe era devido. Por exemplo, se comprava um litro de leite no supermercado com o preço marcado de 0,58 € e a menina da caixa lhe cobrava 0,60 €, não tinha problema nenhum em vir de novo atrás e exigir o troco respectivo, uma autêntica ninharia... mas que era seu. O mesmo acontecia com a recolha do lixo lá na terra, pois sempre pontualmente pagou a taxa correspondente, embora a recolha havia semanas que por vezes não se fazia. Claro que ia de imediato aos serviços camarários e fazia uma reclamação por escrito, quando não se lembrava de armar logo uma bronca na assembleia municipal seguinte. Um dia o senhor Direito descobriu que à filha de uma vizinha sua que vivia com muitas dificuldades não lhe tinham atribuído subsídio de almoço lá na Escola, mas o filho de uma família que vivia muito bem e que até fazia questão de dar nas vistas com um grande carrão novo de grande cilindrada, esse já tinha direito a almoço subsidiado. Claro que o senhor Direito nem quis ouvir mais nada e foi com a sua vizinha falar ao manda chuva do serviço lá do sítio e exigiu que a situação dela fosse revista... e a injustiça colmatada. O senhor Direito era mesmo assim... como com os deveres, os direitos são para ser cumpridos!...

 

A dona Caridadesinha apresentava-se como uma pessoa mansa, mas era sempre muito esperta, não gostando nada que lhe sugerissem ter que se fazer cumprir isto ou aquilo, ofendendo-se muito quando lhe falavam sobre política. "Não sou política", dizia. Segundo ela, bastava o apelo à bondade das pessoas e o bater à porta certa para que o mundo rolasse, ganhando ela alguma coisa com isso. Se alguém lhe dissesse que centenas de famílias estavam desempregadas, com vários filhos a seu cargo e a viverem sem nenhuma dignidade, arrematava logo que iria urgentemente à Junta de Freguesia ou à Câmara e pediria educadamente uns sacos de comida para matar a fome aos infelizes, ou então iria pedir, muito humildemente, por carta registada com aviso de recepção, a Sua Excelência o Senhor Ministro da Solidariedade e Segurança Social para encarecidamente deitar as mãos à consciência e mandar abrir, se possível, mais uma cantina para a "sopa dos pobres". Claro que o que fazia iria ser muito bem divulgado, aparecer nas noticías dos principais jornais, na TV e, muito principalmente, nas redes sociais, mas nada de confrontar ou denunciar o poder constituído com o escândalo da situação, pois isso poderia deitar a perder o seu secreto objectivo de ser promovida para algum futuro lugar notório... e bem remunerado. Se algum desgraçado ficava sem casa e vivia ao relento na rua, por ter sido despedido sem justa causa, nada como mexer os cordelinhos e, sem criar ondas nem denunciar os verdadeiros culpados, apelar publicamente à bondade das pessoas, ficando ela como a verdadeira heroína... e na calha para futuras promoções camarárias ou governamentais!...

 

 

Dona Caridadesinha nunca dará na vida ponto sem nó, ela ha-de chegar lá acima custe o que custar, doa a quem doer, contra tudo e contra todos... sempre eleitoralmente aclamada pelos imensos, pacíficos e pacatos pobresinhos!...