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russomanias

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Sociedade urgente

Conheci o Zé Pedro desde miúdo e sempre nos demos bem. Depois do casório, cada um foi para o seu lado mas nunca deixamos de ter a conversa em dia no que respeita à vida e ao futebol. Sim, que neste país o futebol é tudo e à volta dele se constroem amizades e se destroem corações. Zé Pedro lá me contava então de quando em vez o esforço que fazia na vida para dar do bom e do melhor à família, custe o que custasse. Vivia num apartamento T2 + 1 mas, com o filho a crescer de dia para dia, já se estava a tornar pequeno e decidiu-se a comprar um T4 duplex, apesar de reconhecer que o esforço mensal não ia ser pequeno. Um dia, enquanto tomávamos um café e descascávamos forte e feio no Vale e Azevedo, Zé Pedro mostrou-me então o carro novo que comprara, um AUDI de tirar a respiração e que lhe custara uma pipa de massa, isto é, ia custar, pois que o comprara em ALD. "Mas, ò Zé", perguntei-lhe eu, "tu não tinhas já um Audi e que até era bem jeitoso"? "Pois tinha pá, andava que se fartava e até nem me dava grandes problemas, mas sabes como é, já tinha uns anitos e, lá na empresa, já gozavam comigo", retorquiu o meu amigo Zé Pedro.

 

Uns dois anos mais tarde encontrei-me de novo com o Zé, por acaso, num restaurante ali para os lados da Mealhada. Estava lá ele com a família toda, segundo me disse, a comemorar a compra que fizera de um andar para férias na Praia da Rocha, no Algarve. Perguntei-lhe se não lhe ficaria mais barato pagar a estadia num bom Hotel cada vez que fosse ao Algarve. Ficar ficaria, disse-me ele, "por acaso o apartamente até foi um bocado carote, mas também contou muito o facto de alguns amigos meus lá na empresa já terem casa no Algarve há vários anos e, sabes como é, até parecia mal", acrescentou. Passado um ano ligou-me a perguntar se não queria ir com ele de férias a Varadero, Cuba. Disse-lhe que não me dava jeito e perguntei-lhe: "mas então, e o teu apartamento no Algarve"? Que não, que este ano não ia para lá, disse-me o Pedro, pois "se quase todos lá na empresa já estiveram em Varadero" não fazia sentido nenhum que ele ficasse a chuchar no dedo, embora tivesse que ter pedido um empréstimo elevado para as despesas da viagem para toda a família. Lá isso era verdade, o meu bom amigo Pedro não era homem para ficar atrás fosse de quem fosse, até se enervava todo e... tomava isso como uma grande afronta!...

 

Há dias vi passar a uma certa distância de mim um destes carrinhos de empurrar e que são usados para transportar as pessoas com os membros paralizados ou vítimas de ataques cerebrais. Meu Deus!... quase que posso jurar que ia ali o meu amigo Zé Pedro!...

 

 

P.S.: Qualquer coincidência com um Zé Pedro qualquer que ande por aí é pura coincidência.