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russomanias

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Um português de "jeans" em Moscovo

Janeiro de 1984, Moscovo. Estradas e passeios cobertos de neve. Um frio de rachar, com mais de vinte graus negativos. Bem fiz eu em seguir os conselhos de um meu amigo e comprar uma "chapka", uma espécie de boné russo com extensões para tapar as orelhas, feito de pele de coelho. Acertei também em trazer umas boas botas capeadas com borracha, pois com capas de couro seria de morrer, com a humidade gelada a subir-me pelas pernas acima. Moscovo é uma cidade enorme, com avenidas gigantescas, fria e sem o aspecto das cidades europeias ocidentais, desde logo pela escassez de estabelecimentos comerciais onde se possa comprar as habituais bugigangas ou tomar um chã ou café em cada esquina. Claro que tem restaurantes bons e maus como em qualquer outro lado, e até de luxo, mas para isso é preciso conhecer alguem que domine a cidade. Um amigo levou-me a um desses restaurantes populares situado numa cave meio escondida, atravessado por uma barulheira enorme e frequentado pelos residentes locais, sempre atentos à presença de sofisticados estrangeiros. Foi aí que provei  o arenque fumado à maneira russa, acompanhado de uma enorme caneca de cerveja. Gostei e ainda hoje perco a cabeça com peixes fumados.

 

Ir a Moscovo sem ver o Kremlin é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. Lá fui eu então ver o ícone do poderio soviético, com as suas muralhas vermelhas muito bem conservadas. Lá estavam o mausoléu de Lenine, a majestosa Catedral ortodoxa de S. Basilio, imponente e belíssima, de cores muito vivas e cúpulas douradas, os famosos Armazéns GUM, onde se podia comprar quase tudo mas se não tivessemos moeda forte estrangeira não compravamos quase nada. Admirava-me muito com toda aquela gente que calcorreva Moscovo, estrangeiros por todos os lados, diversos povos dos mais distantes lugares dos confins do império, russos, kazaques, arménios, tadjiques, moldavos, turcomanos e tantos outros. As mulheres russas davam de sobremaneira nas vistas, com os seus fabulosos casacos de peles, que, acrescidos à sua natural beleza, mais as realçava. 

 

Andar no Metro de Moscovo é uma experiência incrivel, com todas aquelas linhas sobrepostas e estações maravilhosamente ornamentadas, autênticas obras de arte.

 

Ir a Moscovo e não comer caviar é o mesmo que ir a Paris e não comer paté de pato. O mais caro é o caviar preto mas, à falta de dolares ou marcos, vai mesmo do vermelho, mais barato mas igualmente bom, pelo menos para mim, que não sou esquisito. E é que não sou mesmo, pois até me dei à experiência de provar e finalmente comer várias vezes a famosa "kaxa" russa, uma espécie de papas de aveia.

 

Muito me admirei de ver a circular em Moscovo centenas e centenas de camiões a carburar gasolina e não gasóleo, muito mais barato. Mas será que esta gente anda a nadar assim tanto em petróleo? Pelos vistos andava mesmo. Outra coisa que demorei a compreender foi o extraordinário interesse dos jovens soviéticos pelas famosas calças de ganga ocidentais, a nossas "jeans", como as minhas, pelos vistos uma autêntica raridade por aqueles lados. Os soviéticos não tinham qualquer dificuldade em fabricar os mais complexos misseis intercontinentais, os mais que gigantescos submarinos atómicos e os mais sofisticados satélites... fabricar "jeans" é que era para eles uma dificuldade, pois que, diziam, corrompia a juventude. Muito honesta e sinceramente... não percebi esta preocupação com as "jeans" ocidentais, mas também não fazia mal, o passeio estava a chegar ao fim.

 

Para se gostar então de Moscovo era necessário gostar de viajar e contactar todos os dias com pessoas e experiências novas, e eu sempre gostei muito. Para alem do mais, sempre suscitaram a minha admiração os autores russos do "Taras Bulba" e de "Os Irmãos Karamazov"... e eu suspirava por um pouco desse ambiente admirável, mesmo que só aproximado e alterado em muito pelo terramoto de 1917.

 

Até à próxima, pátria de Gogol e Dostoievski... até à próxima!...

          

          

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